A «desnazificação» é uma mentira
Mentira do Kremlin
Na Ucrânia dominam nazis e neonazis, pelo que a Rússia teve de realizar uma «operação militar especial» para «desnazificar» o país
Factos
A Ucrânia é um Estado democrático com um presidente judeu democraticamente eleito. Os partidos de extrema-direita têm apoio mínimo. A «desnazificação» é um pretexto propagandístico para a agressão
Sobre o que é este mito?
A 24 de fevereiro de 2022, Putin anunciou o início da «operação militar especial», sendo um dos objetivos oficiais a «desnazificação» da Ucrânia. A propaganda russa retrata sistematicamente a Ucrânia como um Estado dominado por nazis e os ucranianos como «fascistas» que precisam de ser «libertados».
Esta narrativa é absurda do ponto de vista factual e é um exemplo clássico do uso da propaganda para justificar uma guerra de agressão.
Factos que refutam o mito
Um presidente judeu
Volodymyr Zelensky — sexto Presidente da Ucrânia, eleito em 2019 com 73,22% dos votos na segunda volta. Zelensky:
- É de origem judaica — a sua língua materna é o russo, e o seu avô combateu contra os nazis na Segunda Guerra Mundial
- Três irmãos do seu avô morreram durante o Holocausto
- Foi eleito democraticamente em eleições livres, reconhecidas por observadores internacionais
Se na Ucrânia realmente «dominassem nazis», dificilmente teriam eleito presidente um judeu com 73% de apoio.
A extrema-direita nas eleições
Resultados dos partidos de extrema-direita nas eleições parlamentares na Ucrânia:
| Ano | Partido | Resultado |
|---|---|---|
| 2012 | «Svoboda» | 10,44% (máximo histórico) |
| 2014 | «Svoboda» | 4,71% (não ultrapassou a barreira) |
| 2014 | «Setor Direito» | 1,80% |
| 2019 | Coligação de extrema-direita | 2,15% |
2,15% — este é o resultado da lista unificada de todas as forças de extrema-direita nas eleições de 2019. Para comparação:
- França: Marine Le Pen — 41,45% na segunda volta das presidenciais (2022)
- Itália: Fratelli d’Italia — 26% nas eleições de 2022
- Suécia: Democratas Suecos — 20,5% (2022)
- Áustria: FPO — 29% (2024)
- Alemanha: AfD — 20,8% (2025)
Na Ucrânia, a extrema-direita tem o menor apoio entre todos os grandes países europeus. Nenhum partido de extrema-direita está representado na atual Verkhovna Rada.
Índices de democracia
As organizações internacionais classificam a Ucrânia como uma democracia parcialmente livre:
- Freedom House (2022): Ucrânia — «Partly Free» com classificação de 61/100 (Rússia — «Not Free», 19/100)
- Economist Intelligence Unit (2021): Ucrânia — «regime híbrido» com classificação de 5,57 (Rússia — «regime autoritário», 3,24)
- Repórteres Sem Fronteiras (2021): Ucrânia — 97.o lugar (Rússia — 150.o lugar)
A Ucrânia está longe de ser uma democracia perfeita, mas é significativamente mais livre do que a Rússia segundo todos os índices internacionais.
O regimento «Azov»: contexto
Um dos principais argumentos do Kremlin é a existência do regimento «Azov», fundado em 2014 com a participação de voluntários de direita. O que a propaganda omite:
A evolução do «Azov»
- 2014 — criado como batalhão de voluntários para defender Mariupol dos ocupantes russos. Entre os fundadores havia efetivamente pessoas com opiniões de extrema-direita
- 2015 — integrado na Guarda Nacional da Ucrânia (subordinada ao Ministério do Interior)
- 2015–2022 — passou por uma despolitização sistemática: militares com opiniões extremistas foram afastados, o comando foi substituído por oficiais de carreira
- Até 2022, o «Azov» contava com 900–2 500 elementos — menos de 1% das Forças Armadas da Ucrânia
Contexto: a extrema-direita na Rússia
A Rússia, que afirma realizar a «desnazificação» da Ucrânia, ela própria:
- Financia movimentos de extrema-direita por toda a Europa (estudo de Anton Shekhovtsov «Russia and the Western Far Right», 2018)
- Utilizou mercenários nazis do «Grupo Wagner» — o fundador Dmitry Utkin tinha tatuagens nazis e usava um nome de código em homenagem ao compositor favorito de Hitler
- Tem um número significativo de organizações de extrema-direita (Unidade Nacional Russa, Imagem Russa, etc.)
- Utiliza a simbologia Z, que se tornou um símbolo fascista do século XXI
O que é «nazismo» para o Kremlin?
A análise do uso da palavra «nazismo» na propaganda russa mostra que não tem nada em comum com o nazismo real:
Para o Kremlin, «nazi» = qualquer pessoa que:
- Apoie a independência da Ucrânia em relação à Rússia
- Fale a língua ucraniana
- Aspire à integração com a Europa e a NATO
- Não se considere parte do «mundo russo»
Ou seja, «nazi», segundo a lógica do Kremlin, é qualquer ucraniano consciente. Esta é uma tática clássica de desumanização do inimigo, que, ironicamente, é típica dos regimes fascistas.
O verdadeiro nazismo: um espelho para a Rússia
As ações da Rússia na Ucrânia correspondem aos critérios normalmente associados ao fascismo:
- Culto do líder — Putin no poder desde 2000, governação vitalícia de facto
- Expansionismo imperial agressivo — Geórgia (2008), Crimeia (2014), Donbas (2014–), invasão em grande escala (2022–)
- Militarismo — simbologia «Z», culto da «operação especial», propaganda militarista nas escolas
- Supressão da dissidência — encerramento de media independentes, perseguição da oposição (Navalny, Kara-Murza)
- Ideologia do «caminho especial» — o «mundo russo» como ideologia messiânica
- Retórica genocida — desumanização sistemática dos ucranianos
Como observou Timothy Snyder: «A Rússia é um Estado fascista que chama fascista à sua vítima — este é um truque clássico de projeção».
Conclusão
A «desnazificação» não é uma luta contra o nazismo. É um pretexto propagandístico para a destruição do Estado e da identidade ucranianos. A Rússia não combate «nazis», mas o próprio facto da existência de uma Ucrânia independente.
Fontes
- Umland A. «Irregular Militias and Radical Nationalism in Post-Euromaydan Ukraine» (2019) — E-International Relations
- Shekhovtsov A. «Russia and the Western Far Right: Tango Noir» (2018) — Routledge
- Likhachev V. «Far-Right Extremism as a Threat to Ukrainian Democracy» (2018) — Freedom House
- Ishchenko V. «Towards the Abyss» (2022) — New Left Review
- Freedom House «Freedom in the World 2022: Ukraine» (2022)
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