A invasão em grande escala de 2022 — uma agressão, não uma «operação defensiva»
Mentira do Kremlin
A Rússia foi obrigada a iniciar uma «operação militar especial» para proteger a população russófona do Donbas de um «genocídio» e para prevenir a ameaça da NATO
Factos
A 24 de fevereiro de 2022, a Rússia iniciou uma guerra de agressão não provocada contra um Estado soberano. Não houve qualquer «genocídio» no Donbas, e a NATO não ameaçava a Rússia
O que aconteceu a 24 de fevereiro de 2022?
Às 5h00 da manhã, hora de Kyiv, a Rússia lançou uma invasão em grande escala da Ucrânia a partir de três direções:
- Norte — a partir do território da Bielorrússia em direção a Kyiv (com o objetivo de capturar a capital em 3 dias)
- Leste — a partir do Donbas para o interior das regiões de Luhansk e Donetsk
- Sul — a partir da Crimeia em direção a Kherson, Zaporizhzhia e Mariupol
Nas primeiras horas:
- Mísseis e bombas atingiram aeródromos, bases militares e infraestruturas civis em toda a Ucrânia
- As tropas russas lançaram um assalto aerotransportado no aeródromo de Hostomel perto de Kyiv — uma tentativa de criar uma cabeça de ponte para o rápido transporte de reforços
- Foram atacados Kharkiv, Mariupol, Odesa, Sumy, Chernihiv — cidades distantes do Donbas
Isto não foi uma «operação defensiva no Donbas» — foi um ataque a toda a Ucrânia com o objetivo de destruir a sua estadualidade.
Refutação de cada justificação
O «genocídio no Donbas»
A Rússia afirmou que conduzia uma operação para «prevenir o genocídio» da população russófona do Donbas.
Factos:
- O Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) a 16 de março de 2022 ordenou à Rússia que cessasse imediatamente as operações militares, observando que a Rússia não apresentou provas de «genocídio»
- A Missão de Monitorização dos Direitos Humanos da ONU (ACDH) trabalhava no Donbas desde 2014 e nunca registou sinais de genocídio
- De 2018 a 2021, o número de vítimas civis no Donbas diminuiu constantemente — de 55 mortos em 2018 para 25 em 2021
- O maior número de vítimas civis no Donbas foi causado pela própria Rússia — nomeadamente o abate do MH17 (298 mortos) e os bombardeamentos de cidades
A «ameaça da NATO»
Refutado em detalhe no artigo sobre a NATO, mas em resumo:
- A Ucrânia não era membro da NATO e não tinha perspetivas claras de adesão
- A NATO é uma aliança defensiva que nunca atacou a Rússia
- A Rússia tem armas nucleares — nenhum Estado ameaça um país com um arsenal nuclear
- A verdadeira razão — a recusa de Putin em aceitar uma Ucrânia democrática, que é uma refutação viva da tese da «incompatibilidade» dos povos eslavos com a democracia
A «desnazificação»
Refutada em detalhe num artigo separado. Em resumo: na Ucrânia o presidente é judeu, a extrema-direita tem 2,15% de apoio — menos do que em qualquer grande país europeu.
A escala da tragédia
Perdas humanas
Segundo diversas fontes (início de 2025):
- Vítimas civis (confirmadas pela ONU): mais de 11 000 mortos, mais de 22 000 feridos (os números reais são significativamente superiores)
- Baixas militares da Ucrânia: dezenas de milhares de mortos
- Baixas militares da Rússia: segundo estimativas das inteligências ocidentais — mais de 300 000 mortos e feridos
- Refugiados: mais de 6 milhões de ucranianos saíram do país, mais 5 milhões são deslocados internos
Destruição
- Mariupol — uma cidade com 450 000 habitantes destruída quase por completo. O drama do teatro (9 de março de 2022) — bombardeamento de um abrigo onde se encontravam mais de 1 000 civis (incluindo crianças), com a inscrição «CRIANÇAS» visível por satélite
- Bucha, Irpin, Hostomel — massacres de civis durante a ocupação (fevereiro-março de 2022). Em Bucha foram encontrados corpos de centenas de civis com as mãos atadas e sinais de execução
- Barragem de Kakhovka — destruída a 6 de junho de 2023, provocando uma catástrofe ecológica e a inundação de dezenas de localidades
- Infraestrutura energética — bombardeamentos sistemáticos de centrais elétricas, centrais termoelétricas e linhas de transmissão durante os invernos de 2022–2023 e 2023–2024
Crimes contra crianças
17 de março de 2023 — o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu um mandado de detenção contra Vladimir Putin por:
- Deportação ilegal de crianças ucranianas para a Rússia
- Segundo dados da Ucrânia, foram deportadas mais de 19 000 crianças
- As crianças foram forçosamente adotadas por famílias russas, com mudança de nomes e cidadania
- Isto é qualificado como crime de guerra e potencialmente genocídio (a transferência forçada de crianças de um grupo para outro é um indicador de genocídio segundo a Convenção da ONU)
Reação internacional
Assembleia Geral da ONU
2 de março de 2022 — Resolução ES-11/1 «Agressão contra a Ucrânia»:
- 141 países — a favor da condenação da agressão
- 5 países — contra (Rússia, Bielorrússia, Síria, Coreia do Norte, Eritreia)
- 35 países — abstenções
A lista de países que apoiaram a Rússia fala por si: ditaduras e párias internacionais.
Tribunal Internacional de Justiça (TIJ)
16 de março de 2022 — ordem à Rússia para cessar imediatamente as operações militares. A Rússia ignorou a decisão do mais alto órgão judicial da ONU.
Tribunal Penal Internacional (TPI)
- Mandado de detenção de Putin (2023) — o primeiro caso de mandado de detenção contra o líder de uma potência nuclear, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU
- São investigados crimes: deportação de crianças, ataques a infraestruturas civis, assassinatos de civis
A vitória ucraniana em Kyiv
Um dos acontecimentos mais importantes da fase inicial da guerra — o fracasso do avanço sobre Kyiv:
- A Rússia planeava capturar Kyiv em 3 dias e instalar um governo fantoche
- As Forças Armadas da Ucrânia, as Forças de Defesa Territorial e cidadãos comuns resistiram
- A Batalha de Hostomel — paraquedistas ucranianos destruíram a vanguarda do assalto aerotransportado russo
- A Batalha de Kyiv (fevereiro–março de 2022) — a Rússia sofreu pesadas baixas
- Início de abril de 2022 — a Rússia retirou-se dos arredores de Kyiv, deixando Bucha, Irpin, Hostomel destruídos e centenas de corpos de civis
O fracasso da «blitzkrieg» sobre Kyiv prova: a Ucrânia não tencionava render-se e não tenciona render-se.
O que está realmente por trás da invasão
A análise das declarações de Putin e do seu círculo dá uma resposta clara sobre as verdadeiras motivações:
- Putin (12 de julho de 2021, ensaio): «Os russos e os ucranianos são um só povo, um todo»
- Putin (21 de fevereiro de 2022, discurso): «A Ucrânia não é simplesmente um país vizinho… é uma parte integrante da nossa própria história»
- Medvedev (outubro de 2022): «Para nós, a Ucrânia é parte da Rússia»
- Timofei Sergeytsev (RIA Novosti, abril de 2022, artigo «O que a Rússia deve fazer com a Ucrânia»): apelou abertamente à destruição da identidade ucraniana, à «desucranianização», à «reeducação» da população ucraniana
Estas declarações não são sobre a NATO, nem sobre o Donbas, nem sobre «nazis». São sobre a negação da própria existência da nação ucraniana. A invasão em grande escala é uma tentativa de destruir a Ucrânia como Estado e como ideia.
Conclusão
24 de fevereiro de 2022 — não é uma «operação militar especial» nem uma «reação defensiva». É a maior guerra na Europa desde 1945, desencadeada por uma potência nuclear contra um país democrático vizinho. É uma agressão contra a soberania, contra o direito internacional, contra a vontade de 44 milhões de pessoas.
141 países do mundo reconheceram-no. O Tribunal Internacional de Justiça reconheceu-o. O Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de detenção contra Putin. A história já proferiu o seu veredicto.
Fontes
- International Court of Justice «Allegations of Genocide (Ukraine v. Russian Federation)» (2022)
- International Criminal Court «ICC Arrest Warrant for Vladimir Putin» (2023)
- UN General Assembly «Resolution ES-11/1 — Aggression against Ukraine» (2022)
- OHCHR «Report on the human rights situation in Ukraine» (2024)
- Plokhy S. «The Russo-Ukrainian War» (2023) — W.W. Norton
- Stoner K., McFaul M. «Russia Resurrected: Its Power and Purpose in a New Global Order» (2024) — Oxford University Press
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