Voo MH17: Como a Rússia abateu um avião e tentou encobri-lo
Mentira do Kremlin
O voo MH17 foi abatido pela Ucrânia — pelo seu caça Su-25 ou por um míssil antiaéreo. A Rússia não tem nada a ver com esta tragédia
Factos
A investigação internacional (JIT) demonstrou: o avião foi abatido por um míssil Buk pertencente à 53.ª Brigada de Mísseis Antiaéreos das Forças Armadas russas. O sistema de mísseis foi transportado desde a Rússia e devolvido após o disparo. Um tribunal holandês condenou três pessoas
O que aconteceu
No 17 de julho de 2014, o voo Malaysia Airlines MH17 (Boeing 777) viajava de Amesterdão para Kuala Lumpur. Às 16:20 hora de Kyiv, o avião foi abatido sobre território controlado por milícias pró-russas no leste da Ucrânia (perto de Torez, oblast de Donetsk).
298 pessoas falecidas — todas as que estavam a bordo:
- 196 cidadãos neerlandeses
- 43 cidadãos malaios
- 27 cidadãos australianos
- 12 cidadãos indonésios
- 10 cidadãos britânicos
- E cidadãos de outros 6 países
Entre os mortos havia 80 crianças.
A investigação
Dutch Safety Board (OVV)
Outubro de 2015 — o OVV publicou o seu relatório técnico:
- O avião foi destruído por uma ogiva de um míssil antiaéreo da série 9M38 de um sistema Buk
- O míssil detonou à esquerda acima da cabine de pilotagem
- Foram encontrados elementos de estilhaços característicos (em forma de borboleta) de um míssil Buk
Joint Investigation Team (JIT)
O JIT — grupo de investigação internacional formado pelos Países Baixos, Austrália, Bélgica, Malásia e Ucrânia — realizou uma investigação criminal.
Setembro de 2016 — o JIT anunciou:
- O MH17 foi abatido por um míssil Buk da série 9M38
- O sistema de mísseis pertencia à 53.ª Brigada de Mísseis Antiaéreos das forças armadas russas (com base em Kursk)
- O sistema Buk foi transportado desde a Rússia para o território em mãos das milícias
- Após o disparo, o sistema foi devolvido à Rússia — já com um míssil a menos
Bellingcat: provas de fontes abertas
O grupo de investigação Bellingcat realizou uma investigação paralela:
- Rastreou o percurso de um Buk específico (número de veículo 332) desde a Rússia até ao local de lançamento e de volta
- Encontrou fotos e vídeos do Buk transportado com um míssil a menos
- Identificou militares russos específicos envolvidos no transporte
- Usou geolocalização, metadados de fotos, testemunhos e comunicações interceptadas
Comunicações interceptadas
O Serviço de Segurança da Ucrânia publicou conversas telefónicas interceptadas dos milicianos:
- Logo após o abate, os milicianos gabavam-se de ter abatido um «avião»
- Quando ficou claro que era um voo civil — começaram a apagar rastros
- A publicação de Girkin (Strelkov) sobre ter abatido um «An-26» foi apagada quando se soube que era um Boeing civil
O veredicto judicial
17 de novembro de 2022 — o Tribunal Distrital de Haia proferiu a sua sentença:
Culpados (à revelia):
- Igor Girkin (Strelkov) — ex-oficial do FSB, «ministro da Defesa da RPD» — prisão perpétua
- Sergei Dubinsky — oficial do GRU — prisão perpétua
- Leonid Kharchenko — comandante miliciano — prisão perpétua
O tribunal estabeleceu que a Rússia exercia o controlo geral sobre as formações armadas da «RPD».
Versões russas e a sua refutação
Versão 1: «Um Su-25 ucraniano abateu o avião»
Refutada:
- O teto operacional do Su-25 é de 7.000 m. O MH17 voava a 10.000 m — o Su-25 não consegue fisicamente alcançar essa altitude
- O Su-25 é um avião de ataque terrestre, não um interceptor
Versão 2: «Um Buk ucraniano abateu o avião»
Refutada:
- O JIT estabeleceu com precisão o percurso desse Buk específico — vinha do território russo
- O número de série do motor do míssil corresponde a um lote nunca transferido para a Ucrânia
Versão 3: Falsas «imagens de satélite»
Refutada:
- O Bellingcat demonstrou que as imagens tinham sido fabricadas — as sombras e metadados não correspondiam à data declarada
A reação da Rússia
- A Rússia bloqueou a criação de um tribunal internacional da ONU (veto no Conselho de Segurança, julho de 2015)
- Recusa-se a extraditar os condenados
- Continua a negar o seu envolvimento, apesar do veredicto judicial
Conclusão
O MH17 não é uma «questão disputada». É o assassínio de 298 pessoas inocentes, incluindo 80 crianças, por uma arma das forças armadas russas. Isto foi demonstrado por uma investigação internacional, confirmado por um veredicto judicial e documentado com milhares de provas. A Rússia é responsável.
Fontes
- Joint Investigation Team (JIT) «O MH17 foi abatido por um míssil Buk da 53.ª brigada» (2016)
- Dutch Safety Board (OVV) «Investigação ao acidente MH17, 17 de julho de 2014» (2015)
- Bellingcat «MH17: The Open Source Evidence» (2015)
- Tribunal Distrital de Haia «Veredicto no caso MH17» (2022)
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