Os acordos de Minsk: Como a Rússia usou a 'paz' para se preparar para a guerra
Mentira do Kremlin
A Ucrânia afundou os acordos de Minsk ao recusar cumprir as suas obrigações, provocando assim a invasão em grande escala da Rússia
Factos
Os acordos de Minsk foram impostos à Ucrânia sob pressão após derrotas militares. A Rússia nunca cumpriu a sua parte — e admitiu abertamente tê-los usado para acumular forças
Contexto: Como surgiram os acordos de Minsk
Minsk-1 (setembro de 2014)
Após a anexação da Crimeia (março de 2014), a Rússia lançou uma agressão híbrida no Donbas. No verão de 2014, quando a Ucrânia começou a recuperar territórios, a Rússia enviou forças regulares. O resultado foi a derrota das forças armadas ucranianas em Ilovaisk (agosto de 2014), onde mais de 100 soldados ucranianos foram fuzilados durante a retirada por um «corredor verde».
Sob a pressão desta derrota, a Ucrânia assinou o «Protocolo de Minsk» (5 de setembro de 2014).
Minsk-2 (fevereiro de 2015)
Em janeiro-fevereiro de 2015, a Rússia organizou uma nova ofensiva sobre Debaltseve. O «Minsk-2» foi assinado a 12 de fevereiro de 2015, mas Debaltseve caiu a 18 de fevereiro — depois do «cessar-fogo» assinado.
Por outras palavras: ambos os protocolos de Minsk foram assinados pela Ucrânia após derrotas militares infligidas por forças regulares russas. Não foi um «acordo voluntário» — foi um ultimato.
O que previa o «Minsk-2»?
Pontos-chave do «pacote de medidas»:
- Cessar-fogo imediato
- Retirada de armamento pesado
- Supervisão da OSCE
- Realização de eleições locais nos territórios ocupados
- Reforma constitucional — «descentralização» com «estatuto especial» para o Donbas
- Restauração do controlo ucraniano da fronteira — após as eleições e a reforma
Uma armadilha para a Ucrânia
A sequência dos pontos era envenenada:
- A Ucrânia devia realizar eleições nos territórios ocupados antes de recuperar o controlo da fronteira
- As eleições decorreriam sob ameaça das armas — com forças de ocupação e milícias armadas
- O «estatuto especial» daria efetivamente a Moscovo um direito de veto sobre a política externa da Ucrânia
- A Ucrânia só recuperaria o controlo da fronteira no final — ou seja, muito provavelmente, nunca
Isso equivalia a legalizar a ocupação através de procedimentos pseudodemocráticos.
Quem violou os acordos?
A Rússia
- Nunca reconheceu a sua participação no conflito
- Não retirou o armamento pesado
- Bloqueou a missão da OSCE
- Continuou a fornecer armas, equipamentos e pessoal
- A supervisão da OSCE registou milhares de violações do cessar-fogo pela «LPR/RPD» (Rússia)
- Emitiu mais de 800.000 passaportes russos a residentes do Donbas
A Ucrânia
- Aprovou uma lei sobre procedimentos especiais de autogoverno
- Respeitou o cessar-fogo (com violações, mas significativamente menos do que do lado russo)
- Não podia realizar eleições nos territórios ocupados porque não controlava nem a fronteira nem a situação de segurança
Confissões: «Minsk» como cobertura
Angela Merkel
Em dezembro de 2022, a ex-chanceler alemã Angela Merkel declarou numa entrevista ao Die Zeit:
«Os acordos de Minsk de 2014 foram uma tentativa de dar tempo à Ucrânia. Ela usou esse tempo para se tornar mais forte, como se pode ver hoje. A Ucrânia de 2014-2015 não é a Ucrânia de hoje»
François Hollande
O ex-presidente francês François Hollande confirmou:
«Sim, Angela Merkel tinha razão… demos tempo à Ucrânia para se fortalecer»
A reação do Kremlin
Putin usou estas declarações como «prova» de que o Ocidente «enganou» a Rússia. Mas na realidade:
- Estas declarações demonstram que mesmo quem assinou Minsk entendia que a Rússia não iria cumpri-lo
- A própria Rússia usou o «Minsk» para rearmar-se — acumulando o potencial militar das «LPR/RPD» e transformando o Donbas numa plataforma para a invasão
O Memorando de Budapeste (1994)
O documento-chave que a Rússia traiu:
5 de dezembro de 1994 — Ucrânia, Rússia, EUA e Reino Unido assinaram o Memorando de Budapeste, pelo qual:
A Ucrânia renunciou ao terceiro maior arsenal nuclear do mundo (1.900 ogivas estratégicas) em troca de:
- Respeito da independência, soberania e fronteiras da Ucrânia
- Abstenção de ameaças de força contra a Ucrânia
- Consultas em caso de ameaças
A Rússia violou TODOS os pontos:
- Anexação da Crimeia (2014)
- Invasão do Donbas (2014)
- Invasão em grande escala (2022)
O Memorando de Budapeste é o maior fracasso do desarmamento nuclear da história.
Conclusão
Os acordos de Minsk não foram um «caminho para a paz». Foram:
- Para a Rússia — uma cobertura para o rearmamento e a preparação de uma invasão em grande escala
- Para a Ucrânia — uma armadilha envenenada que teria legalizado a ocupação
- Para o Ocidente — uma tentativa de «comprar tempo» que apenas adiou o inevitável
Dizer «a Ucrânia afundou Minsk, por isso a Rússia invadiu» é como culpar uma vítima por não ter aceite as condições de um ladrão, e por isso o ladrão matou toda a família.
Fontes
- Merkel A. «Entrevista ao Die Zeit» (2022) — Die Zeit
- Hollande F. «Les Leçons du pouvoir» (2022) — Stock
- OSCE «Pacote de medidas para a implementação dos acordos de Minsk» (2015)
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