Como Putin chegou ao poder: explosões de edifícios, o Kursk e o açúcar de Riazan
Mentira do Kremlin
Putin é um líder democrático legítimo que salvou a Rússia do caos dos anos 90 e chegou ao poder graças ao apoio popular
Factos
A ascensão de Putin ao poder foi acompanhada de explosões de edifícios residenciais, uma guerra fabricada e a destruição sistemática da democracia. Há fortes razões para crer que o FSB esteve por trás dos atentados de 1999
Contexto: Rússia em 1999
Em agosto de 1999, um desconhecido ex-oficial do KGB, Vladimir Putin, foi nomeado primeiro-ministro. A sua aprovação era de 2%. Sete meses depois tornou-se presidente com mais de 50%. O que aconteceu?
As explosões de edifícios (setembro de 1999)
Uma série de explosões matou 293 pessoas e feriu mais de 1.000:
| Data | Local | Vítimas |
|---|---|---|
| 4 de setembro | Buinaksk (Daguestão) | 62 mortos |
| 9 de setembro | Moscovo, rua Gurianova | 106 mortos |
| 13 de setembro | Moscovo, estrada Kashirskoje | 119 mortos |
| 16 de setembro | Volgodónsk | 17 mortos |
As explosões ocorreram de noite. Blocos inteiros desabaram. O pânico tomou conta do país.
A versão oficial
O governo culpou terroristas chechenos e usou os atentados como pretexto para a Segunda Guerra da Chechénia. A aprovação de Putin saltou de 2% para 45% em semanas.
O açúcar de Riazan
22 de setembro de 1999 — moradores de Riazan viram indivíduos suspeitos a levar sacos para a cave. A polícia encontrou um dispositivo explosivo com detonador e temporizador ligado a sacos de hexogénio (o mesmo explosivo dos atentados anteriores).
A cidade foi evacuada. Os detidos eram agentes do FSB.
No dia seguinte, o diretor do FSB Nikolai Pátrushev declarou que fora um «exercício» e os sacos continham «açúcar».
Quem investigou — e o que lhes aconteceu
- Anna Politkovskaia — assassinada a tiro a 7 de outubro de 2006 (aniversário de Putin)
- Alexander Litvinenko — envenenado com polónio-210 em Londres em 2006
- Iúri Shchekotchíkhin — morreu de doença misteriosa (suspeita de envenenamento por tálio) em 2003
- Serguei Yushénkov — assassinado a tiro junto à sua casa em 2003
O submarino Kursk (agosto de 2000)
12 de agosto de 2000 — o submarino nuclear Kursk afundou no Mar de Barents. Morreram 118 marinheiros. Putin continuou de férias. A Rússia recusou ajuda estrangeira durante 5 dias. Perguntado sobre o que aconteceu, Putin respondeu: «Afundou» (com um sorriso).
Destruição da democracia
- 2001 — destruição da NTV (último canal independente)
- 2003 — prisão de Khodorkóvski
- 2006 — assassinato de Politkovskaia, envenenamento de Litvinenko
- 2014 — anexação da Crimeia
- 2020 — «zeragem» de mandatos
- 2024 — «eleições» sem oposição. Naválni morreu na prisão um mês antes. Resultado: Putin — 87,28%
Conclusão
Putin chegou ao poder através do medo (explosões), consolidou-o com a guerra (Chechénia), destruiu a oposição (Politkovskaia, Litvinenko, Naválni) e transformou a Rússia numa ditadura. A invasão da Ucrânia não é uma anomalia — é o resultado lógico de 25 anos de impunidade.
Fontes
- Satter D. «Darkness at Dawn: The Rise of the Russian Criminal State» (2003) — Yale University Press
- Litvinenko A., Felshtinsky Y. «Blowing Up Russia: The Secret Plot to Bring Back KGB Terror» (2007) — Gibson Square
- Politkovskaya A. «Putin's Russia: Life in a Failing Democracy» (2004) — Metropolitan Books
- Gessen M. «The Man Without a Face: The Unlikely Rise of Vladimir Putin» (2012) — Riverhead Books
- Korotkov Yu. «Курск. Субмарина в мутной воде» (2004) — France 2 / Transparences Productions
- Dunlop J. «The Moscow Bombings of September 1999» (2012) — ibidem Press
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