«Por que a Ucrânia não cede simplesmente as terras pela paz?»
Mentira do Kremlin
Zelensky não quer a paz e prolonga deliberadamente a guerra. Se a Ucrânia simplesmente cedesse a Crimeia e o Donbas, a guerra acabaria
Factos
As concessões a um agressor não travam a agressão — encorajam-na. A Rússia não invadiu pela Crimeia ou pelo Donbas, mas para destruir a Ucrânia como Estado. 'Ceder terras' significa entregar milhões de pessoas à ocupação
Por que esta pergunta é incorrecta
A pergunta «por que a Ucrânia não cede terras?» baseia-se em várias suposições falsas:
- Que a Rússia quer apenas terras (e não a destruição da Ucrânia)
- Que após a «cessão» virá a paz
- Que não há pessoas nessas terras, ou que o seu destino não interessa a ninguém
- Que o agressor tem o direito de exigir concessões da vítima
A Rússia não quer terras, mas a destruição da Ucrânia
O que diz o próprio Putin
- Julho de 2021 (ensaio): «Os russos e os ucranianos são um só povo» — ou seja, o povo ucraniano não existe
- Fevereiro de 2022 (discurso): «A Ucrânia é uma parte inseparável da nossa própria história»
- Setembro de 2022: anexação de 4 regiões que a Rússia nem sequer controla completamente — ou seja, as pretensões não têm limites
- Dezembro de 2021 (ultimato): exigência de retirada da NATO de todos os países que aderiram após 1997 — ou seja, a questão não se limita à Ucrânia
O artigo «O que a Rússia deve fazer com a Ucrânia»
Em abril de 2022, a agência estatal RIA Novosti publicou um artigo programático de Timofei Sergeytsev descrevendo abertamente os planos:
- «Des-ucranianização» — destruição da identidade ucraniana
- «Reeducação» da população — russificação forçada
- Eliminação do nome «Ucrânia»
- «Punição» de todos os que apoiaram a independência
Não se trata da Crimeia ou do Donbas. Trata-se da destruição da Ucrânia como nação.
A lição histórica: Munique 1938
A ideia de «ceder um pouco de terra pela paz» já foi testada na história:
30 de setembro de 1938 — A Grã-Bretanha e a França concordaram em entregar a Hitler os Sudetos da Checoslováquia. O Primeiro-Ministro Chamberlain regressou de Munique declarando «a paz para a nossa geração».
O que aconteceu a seguir:
- Março de 1939 — Hitler ocupou toda a Checoslováquia
- Setembro de 1939 — Hitler atacou a Polónia → início da Segunda Guerra Mundial
- Resultado: 50–70 milhões de mortos
A história com a Rússia repete este cenário:
- 2008 — A Rússia invadiu a Geórgia (Abcázia, Ossétia do Sul) → o mundo ficou em silêncio
- 2014 — A Rússia anexou a Crimeia → sanções, mas sem consequências graves
- 2014–2022 — Guerra no Donbas → os «Acordos de Minsk», que a Rússia usou para preparar a invasão
- 2022 — Invasão em grande escala da Ucrânia
Cada concessão ao agressor não o parou — encorajou-o ao passo seguinte.
O que acontece nos territórios ocupados
Bucha, Irpin, Hostomel (março de 2022)
Após a retirada das forças russas dos arredores de Kyiv:
- Centenas de corpos de civis nas ruas, muitos com as mãos atadas
- Rastos de execuções sistemáticas — tiros na nuca
- Provas de violência sexual em massa
- Destruição de infraestruturas civis e saques
Mariupol
- Uma cidade de 450.000 habitantes, destruída quase completamente
- Bombardeamento de uma maternidade (9 de março de 2022)
- Bombardeamento de um teatro com a inscrição «CRIANÇAS» no exterior (16 de março de 2022) — mais de 300 mortos
- Segundo as autoridades de Mariupol, morreram mais de 20.000 civis
Territórios ocupados das regiões de Kherson e Zaporizhzhia
Documentado:
- Campos de filtração — controlo em massa da população com tortura
- Passaportização forçada — emissão de passaportes russos sob coação
- Sequestro e tortura de activistas, jornalistas e funcionários locais
- Russificação das escolas — proibição do ensino em ucraniano
- Deportação de crianças — mais de 19.000 crianças levadas para a Rússia (mandado de detenção do TPI contra Putin)
Por que Zelensky «não quer a paz»
Zelensky quer a paz. Mas quer uma paz justa, não uma capitulação:
As exigências de Putin (junho de 2024):
- A Ucrânia renuncia à Crimeia, Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson (incluindo territórios que a Rússia não controla completamente!)
- A Ucrânia nunca adere à NATO
- A Ucrânia reduz o seu exército ao mínimo
- Levantamento de todas as sanções contra a Rússia
Não são condições de paz — são condições de capitulação que privariam a Ucrânia de soberania e segurança.
A posição da sociedade ucraniana
Segundo sondagens de opinião (KIIS, Rating, 2023–2024):
- 85–90% dos ucranianos consideram inaceitável qualquer concessão territorial
- 70–80% acreditam na vitória
- Menos de 10% estão dispostos a compromissos territoriais
Não é que «Zelensky não queira a paz». São 44 milhões de ucranianos que não querem a capitulação. E têm pleno direito a isso.
Fontes
- Snyder T. «The War in Ukraine Is a Colonial War» (2022) — The New Yorker
- OHCHR «Report on violations of international humanitarian and human rights law, war crimes and crimes against humanity committed in Ukraine» (2022)
- Chamberlain N., Daladier É., Hitler A., Mussolini B. «Acordo de Munique» (1938)
- Tribunal Penal Internacional «Mandado de detenção contra Vladimir Putin» (2023)
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